18 de abr de 2008

LETÍCIA FERREIRA BRAGA



Letícia é escritora e autora do livro "O prazer de ficar em casa".


"Cada Casa é um Caso"

Eu acordo de manhã e, assim que encosto os pés no chão de madeira, que escolhi com todo cuidado, me sobe, com um suspiro, um sorrizo feliz. Acertei. O resto da casa tem piso frio, mas, no quarto, eu quis alguma coisa mais aconchegante, até na cor.
Quanto mais eu penso, mais entendo que não existem valores universais para se definir o que é "morar bem". Nem critérios básicos, como espaço e luminosidade, podem ser considerados absolutos, porque a verdade é que existe gosto para tudo. Mas é inegável que uma necessidade primordial de todo ser humano é a de "morar", ou seja, encontrar um local onde possa habitar e ,ali, sentir-se protegido, o que não é tão fácil quanto parece, menos ainda em um mundo atribulado como o atual.
Precisamos de ajuda para transformar o espaço à nossa volta em um lugar especial, que embale nosso sono à noite e alegre nossos olhos pela manhã. Para começar, temos grandes aliados que nos acompanham sempre: os cinco sentidos. Por meio deles, temos contato com as coisas, e recebemos dicas confiáveis sobre nossas inclinações mais íntimas: porque o olho foi o primeiro para a persiana de palhinha e não para a cortina de tecido? Porque a mão decidiu escorregar pela bancada de mármore, e não pela de vidro? Quais são as cores, as texturas, os cheiros e os sons que, sem querer, a gente procura? Quais são os mecanismos internos que nos fazem gostar disso e não daquilo? Não existe resposta certa, porque, como seres complexos e individuais, cada um de nós traz em si uma infinidade de referências afetivas que determinam as escolhas. É claro que, muitas vezes, acabamos fazendo concessões em prol da praticidade ou do conforto, mas o grande determinante, geralmente, é o afeto, porque buscamos a sensação de acalanto e segurança que conhecemos instintivamente.
Portanto, é fundamental sermos conscientes, estarmos em contato com nossos sentimentos e respeitá-los, resistindo à tentação de querer arrumar tudo rapidamente e caindo no consumismo - que pode gerar arrependimentos mil. A nossa casa vai assumindo a própria identidade aos poucos, no dia-a-dia, enquanto andamos por ela, falamos ao telefone, cantamos no chuveiro, cozinhamos para a nossa família, rezamos, brigamos damos risada, nos sentamos para tomar um café amigo... Tudo isso entra pelos poros das paredes, como uma tinta mágica que a gente não vê, mas sente. Um dia chega uma planta, dali um tempo uma luminária, uma almofada diferente para o sofá, saí a luminária, entra uma cadeira, e assim vai. A casa passa, então, a ter vida própria, a contar uma história feita de palavras e silêncio, luzes e sombras, entra-e-sai de pessoas e coisas. Uma história que a gente não lê, mas sente.

Um belo texto extraído da revista Casa e decoração

2 comentários:

Raquel Ferreira disse...

Ana, adorooooooo o seu blog! Sou aspirante a psicanalista, mas amo deixa os meus espaços mais aconchegantes e visualmente agradáveis. Todos os dias venho te visitar aqui e o melhor é que todos os dias tem uma coisa nova. Adorei o texto e é assim que vejo a morada, como um grande investimento ao bem-estar.
bju (Raquel- PB)

Adoro seus trabalhos e as seleções dos trabalhos de amigos que vc traz aqui.

Sandra... disse...

Precioso comentario!
Mi casa es "mi santuario" y como tal la trato.
Besos!!